Abri.
Era uma declaração assinada por Rafael, registrada em cartório.
Nela, meu filho afirmava que eu havia prometido verbalmente transferir o apartamento para ele. Dizia também que eu apresentava sinais de “confusão mental”, que Eduardo exercia influência indevida sobre mim e que Camila apenas tentava proteger meu patrimônio.
No fim, havia um pedido para que o imóvel fosse colocado em nome de uma empresa controlada por Rafael e Camila.
O documento tinha sido preparado antes mesmo de me expulsarem.
Eles não estavam improvisando. Estavam executando um plano.
Subimos.
Quando o elevador abriu no meu andar, ouvi vozes dentro do apartamento.
Camila parecia irritada.
— Eu não entendo por que você está fazendo isso agora.
— Porque eu quero saber quando vou receber minha parte — respondeu uma voz masculina.
Reconheci Augusto.
Eduardo apertou o botão da campainha.
Por alguns segundos, ninguém abriu.
Depois Camila apareceu. Estava usando uma das minhas camisetas de algodão.
Ao ver Eduardo, seu rosto perdeu a cor.
Ao ver a mulher que estava ao lado dele, ficou completamente imóvel.
Eu também.
Era uma senhora de cabelos grisalhos, baixa, elegante, com o rosto marcado pelo tempo. Usava um vestido azul-marinho e segurava uma bolsa antiga contra o peito.
Eu não a conhecia.
Mas Augusto conhecia.
Porque, quando ele surgiu no corredor, empalideceu tanto que pareceu envelhecer dez anos em segundos.
— Não — ele murmurou.
A mulher olhou para ele.
— Olá, Augusto.
Sônia apareceu logo atrás, e deixou cair a xícara que segurava.
O barulho da porcelana quebrando interrompeu tudo.
Camila olhou para os pais.
— Quem é ela?
A mulher não respondeu.
Eduardo entrou no apartamento e mostrou sua carteira da Ordem dos Advogados.
— Senhor Augusto, senhora Sônia, vocês precisam nos acompanhar. Este imóvel é propriedade do Instituto Helena Duarte, e vocês estão ocupando o local sem autorização da usufrutuária e da administração.
Camila começou a rir, mas o riso saiu nervoso.
— Isso é ridículo. A Helena nos deu a chave.
— A senhora Helena não autorizou a permanência de vocês. Ela entregou a chave sob coação moral e diante de um plano fraudulento documentado.
— Coação? — Rafael apareceu atrás dela. — Minha mãe saiu por vontade própria.
Eu olhei para ele.
— Você assinou uma declaração dizendo que eu sou incapaz.
Ele congelou.
Camila se virou.
— Rafael…
— Não — falei. — Deixe ele responder.
Rafael olhou para Eduardo.
— Você invadiu meus documentos?
— Não. Você enviou uma cópia para o próprio cartório, anexada ao pedido de transferência. Ela chegou ao nosso conhecimento por meios legais.
Camila fechou a porta atrás de si.
— Helena, acho que você está exagerando. Nós só queremos conversar.
— Não. Vocês querem o apartamento.
— É da família.
— Não é.
Tirei da bolsa a cópia da escritura de transferência.
— O imóvel pertence ao Instituto Helena Duarte de Apoio a Trabalhadores da Saúde. Eu tenho apenas o usufruto vitalício. Vocês não têm direito nenhum sobre ele.
Augusto respirou fundo.
— Essa transferência pode ser contestada.
— Pode. Mas não será contestada por você.
A mulher desconhecida deu um passo à frente.
— Nem por ele.
Augusto recuou.
Camila finalmente perdeu a paciência.
— Alguém pode me explicar quem é essa mulher?
Ela olhou para Camila.
— Meu nome é Teresa Nogueira.
Rafael ficou branco.
O sobrenome atingiu o ambiente como uma explosão.
— Nogueira? — ele perguntou.
Teresa apertou a bolsa.
— Eu fui casada com Marcelo Nogueira.
Meu coração bateu forte.
Marcelo.
O homem que eu havia conhecido. O homem que sumira quando eu estava grávida. O homem que todos acreditavam estar morto depois de desaparecer no exterior.
— Ele morreu há cinco anos — disse Teresa. — Mas, antes de morrer, deixou uma confissão.
Augusto encostou na parede.
— Teresa, não faça isso.
— Você teve vinte e dois anos para fazer a coisa certa.
Ela retirou alguns papéis da bolsa e entregou a Eduardo.
— Marcelo gravou tudo. Disse que você pagou para ele assumir a criança e desaparecer. Disse também que, quando Rafael crescesse, você pretendia reconhecê-lo em segredo e usá-lo para obter acesso ao patrimônio de Helena.
— Isso é mentira! — Augusto gritou.
— É? Então por que você depositou dinheiro na conta dele todos os meses?
Sônia levou a mão ao peito.
— Augusto…
— Eu posso explicar.
— Você já explicou — disse Teresa. — Para a polícia, há seis anos. O problema é que o inquérito foi arquivado porque Marcelo estava morto e você pagou testemunhas.
Eduardo folheava os documentos.
— A gravação foi periciada. Também temos extratos bancários, cópias de transferências e a certidão original de Rafael.
Rafael parecia incapaz de se mexer.
— Meu pai… — sussurrou.
Teresa olhou para ele.
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