— Quem?

Eduardo demorou a responder.

— Augusto Vasconcelos.

O nome levou alguns segundos para fazer sentido.

Augusto.

O pai de Camila.

O arquiteto que, naquele exato momento, estava ocupando a minha varanda.

— Isso é impossível.

— Não é.

— Augusto era casado com Sônia.

— Eles estavam separados na época. Augusto teve um relacionamento com você. Depois, voltou para ela. Quando soube da gravidez, procurou Marcelo para que ele assumisse a situação. Marcelo aceitou em troca de dinheiro.

Minha boca ficou seca.

— Eu achei que o pai fosse Marcelo.

— Era o que ele queria que você acreditasse. Augusto também. Mas fizemos um teste de DNA anos depois.

— Fizemos?

Eduardo baixou os olhos.

— Quando Rafael tinha vinte e um anos, ele sofreu aquele acidente de moto. O hospital pediu informações genéticas por causa de uma possível transfusão rara. Você me autorizou a investigar a paternidade, lembra?

Eu lembrava vagamente. Na época, Rafael estava internado, e minha vida havia virado uma sequência de corredores brancos, formulários e lágrimas.

— Você disse que não havia nada importante.

— Eu disse que não havia necessidade de envolver você naquele momento.

Ele empurrou o documento na minha direção.

O resultado estava ali.

Probabilidade de paternidade entre Augusto Vasconcelos e Rafael: 99,98%.

Li duas vezes. Depois uma terceira.

— Por que você nunca me contou?

— Porque Augusto me procurou. Pediu que eu mantivesse segredo. Disse que assumiria Rafael financeiramente, mas não queria destruir a família.

— E Rafael?

Eduardo fechou os olhos por um instante.

— Descobriu há seis meses.

O ar desapareceu dos meus pulmões.

— Rafael sabe que Augusto é pai dele?

— Sabe.

— Camila sabe?

— Sabe há quase quatro meses.

Minha mão começou a tremer.

As palavras ditas no telefone voltaram à minha cabeça.

“Um dia esse apartamento será do Rafael. Portanto, tecnicamente, será nosso.”

Não era apenas ganância.

Era algo muito mais antigo, mais sujo, mais calculado.

— Eles querem o apartamento por causa disso?

Eduardo balançou a cabeça.

— Em parte. Mas tem mais.

Ele puxou um contrato.

— Augusto está falido.

— O quê?

— Os projetos dele fracassaram. Ele tem dívidas enormes e processos trabalhistas. Sônia perdeu quase tudo tentando cobrir os prejuízos. Eles não vieram para descansar em Maceió.

Olhei para o documento.

— Então por que vieram?

— Porque o apartamento vale muito dinheiro. E porque Camila descobriu uma coisa.

Eduardo deslizou uma cópia de um registro imobiliário sobre a mesa.

— Há dois anos, você criou o Instituto Helena Duarte de Apoio a Trabalhadores da Saúde.

— Eu nunca contei isso a eles.

— Não precisava. O registro é público.

O instituto havia sido meu projeto secreto. Depois de décadas trabalhando em hospitais, eu havia visto profissionais de enfermagem perderem tudo por causa de doenças, acidentes e dívidas. Eu começara pequeno, usando economias e doações, até comprar uma casa antiga no interior de Alagoas para transformá-la em um centro de descanso e atendimento psicológico para enfermeiros.

— O que isso tem a ver com o apartamento?

— Tudo. Você transferiu o imóvel para o instituto há três meses.

— Transferi.

— E deixou uma cláusula de usufruto vitalício para você.

— Ou seja, continuo morando aqui enquanto quiser.

— Exatamente. Mas a propriedade legal não é mais sua. É do instituto.

Eu me lembrava do dia em que assinei a transferência. Eduardo havia insistido para que eu pensasse com calma.

Eu não pensei muito.

A decisão parecia óbvia. Rafael tinha uma boa carreira, uma esposa rica e uma família que sempre deixou claro que não precisava de mim. O apartamento seria mais útil para um projeto que ajudaria centenas de pessoas do que para um filho que só lembrava de mim quando precisava de dinheiro.

— Camila descobriu a transferência — continuou Eduardo. — E começou a pressionar Rafael. Eles acreditam que, se conseguirem provar que você está incapaz de administrar seus bens, podem pedir judicialmente a interdição e contestar a doação.

— Incapaz?

— Eles têm gravações de discussões antigas. Mensagens fora de contexto. Comentários seus sobre cansaço. Queriam construir uma narrativa de que você está emocionalmente instável e sendo manipulada por mim.

Eu fiquei olhando para a mesa.

— Então me expulsar foi uma armadilha.

— Sim. Eles queriam provocar uma reação. Depois, usariam isso para dizer que você não tem condições de morar sozinha.

Senti uma tristeza profunda, mas não por eles.

Era por mim.

Por ter passado anos acreditando que meu filho ainda precisava de proteção quando, na verdade, ele havia aprendido a me enxergar como um patrimônio.

— Quem é a segunda pessoa? — perguntei.

Eduardo fechou a pasta.

— Você vai descobrir às dez.

Às 9h40, voltamos ao prédio.

No estacionamento, ele me entregou um envelope.

— Leia antes de subir.