“Mãe, pra quê esse teatro?”
Olhei para ele com calma.
“Você disse que eu estava fazendo drama. Então vamos ficar nos fatos.”
Roberto puxou discretamente uma cadeira para mim. Foi a primeira cadeira que alguém me ofereceu naquela noite.
Sentei.
Ele pegou a pasta preta, abriu e analisou o valor.
“Este consumo foi lançado integralmente na reserva feita em nome do senhor Mateo e da senhora Jimena”, disse. “A reserva começou às seis da tarde. Dona Carmen não participou do pedido de nenhum item.”
Jimena cruzou os braços.
“Isso todo mundo sabe. Ela chegou depois. Mas é família.”
Roberto manteve a voz neutra.
“Família não muda a responsabilidade do pedido.”
Dona Letícia inclinou o corpo para frente.
“Meu senhor, ninguém está dizendo que ela é obrigada. Foi um acordo entre eles.”
“Não houve acordo”, respondi.
Todos olharam para mim.
Peguei o celular e abri a mensagem que recebera.
Mostrei apenas a tela com o horário do convite: 20h30.
“Disseram que o jantar começava às oito e meia. Quando cheguei, vocês já tinham terminado.”
Mateo passou a mão pelo rosto.
“Mãe, não complica.”
“Eu ainda nem comecei.”
A mulher da mesa ao lado virou levemente o corpo. O capitão de garçons se afastou alguns passos, mas percebi que continuava ouvindo.
Roberto fechou a pasta e fez um sinal para um funcionário trazer um tablet.
Jimena perdeu a paciência.
“Que absurdo. Agora vão fazer auditoria por causa de uma conta?”
“Não”, disse Roberto. “A auditoria foi feita antes da chegada de dona Carmen.”
Foi a primeira vez que Mateo olhou diretamente para ele.
“Como assim?”
Roberto recebeu o tablet e tocou na tela.
“Às 19h52, a senhora Jimena pediu ao garçom que a conta fosse preparada no nome de dona Carmen Ferreira.”
Jimena ficou imóvel.
Dona Letícia franziu a testa.
“Isso deve ter sido um mal-entendido.”
“Às 19h54”, continuou Roberto, “o garçom informou que não poderia alterar o responsável financeiro da reserva sem a presença ou a autorização da pessoa. Às 20h01, a senhora Jimena repetiu o pedido ao capitão.”
Jimena se levantou.
“Eu só disse que minha sogra pagaria. Não cometi crime nenhum.”
Eu não respondi. Não precisava.
A mesa começou a mudar de temperatura sem que ninguém tocasse no ar-condicionado.
Um cunhado de Jimena, que até então ria de tudo, apoiou os talheres no prato e se afastou alguns centímetros. Uma amiga dela tirou a bolsa do encosto da cadeira e colocou no colo. Pequenos gestos, mas eu conhecia aquele movimento: quando a crueldade deixa de ser divertida porque pode ter testemunhas.
Mateo tentou recuperar o controle.
“Pronto. Ela achou que a senhora ia ajudar. Foi isso.”
“Não”, disse Roberto. “Ainda não terminei.”
Jimena voltou a sentar, mas sua coluna já não parecia tão reta.
Ele virou o tablet na direção dela.
“Às 20h07, depois que o capitão recusou novamente, foi solicitado que adicionassem uma garrafa de champanhe de R$ 12.800. A senhora perguntou se haveria problema porque ‘quem vai pagar nem chegou ainda’.”
A amiga de Jimena virou o rosto para ela.
“Você falou isso?”
“Era brincadeira.”
Roberto não discutiu. Apenas continuou.
“Depois vieram mais duas porções de caviar, quatro doses de conhaque raro e a sobremesa com folha de ouro.”
Dona Letícia tentou sorrir.
“Todo mundo exagera um pouco em aniversário.”
“Com o próprio dinheiro, sim”, eu disse.
Ela me lançou um olhar duro.
Mateo bateu a mão na mesa.
“Chega. Mãe, eu vou devolver. Qual é o problema?”
Foi então que eu finalmente olhei para a conta outra vez.
“Você vai devolver como?”
Ele abriu a boca.
“Do meu salário.”
“Qual salário?”
O rosto dele mudou.
Jimena virou para ele.
“Mateo?”
Eu havia recebido aquela notificação no táxi. Era do contador da empresa que Augusto deixara para mim e que, nos últimos quatro anos, eu permitira que Mateo administrasse parcialmente. Não era uma grande corporação. Era uma empresa de locação de equipamentos médicos, construída durante décadas com disciplina, contratos modestos e reinvestimento. Depois da morte de Augusto, eu mantive 72% das cotas. Mateo tinha 18%. Os outros 10% estavam em um fundo de participação para funcionários antigos.
Eu nunca contei detalhes a Jimena. Não porque escondesse riqueza, mas porque ela nunca perguntou sobre minha vida. Para ela, meu casaco simples significava pouca importância. Minha bolsa velha significava pouco dinheiro. Meu silêncio significava fraqueza.
Mateo sabia melhor.
E talvez por isso estivesse pálido.
“Recebi uma mensagem do Sérgio agora no caminho”, eu disse.
Ele engoliu em seco.
“Mãe, não mistura empresa com família.”
“Foi você quem misturou.”
Jimena olhou de mim para ele.
“O que está acontecendo?”
Mateo tentou pegar meu braço. Eu recuei antes que tocasse.
“A conta empresarial usada para algumas despesas de representação foi bloqueada hoje às seis e dez”, continuei. “O contador encontrou gastos pessoais sendo apresentados como despesas de clientes.”
Jimena ficou branca.
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