Eu sorri.
Meu nome é Victoria Hale. Durante anos, Julian foi o rosto público de um império que todos juravam ter sido construído por ele. A empresa estampava sua reputação. A mansão aparecia em revistas. O jatinho particular ficava disponível sempre que ele queria. Até o Bentley preto que Camille Rhodes dirigira naquela noite parecia mais um troféu do sucesso de Julian.
Ele adorava símbolos de poder.
Só tinha esquecido quem era dona deles.
O salão de festas brilhava sob lustres de cristal. Taças tilintavam, garçons circulavam com champanhe e dois telões exibiam fotos de Julian cortando fitas, apertando mãos e sorrindo diante de prédios ligados ao grupo empresarial. Eu estava sentada perto do palco, com um vestido azul-marinho simples e o broche de safira que pertencera à minha mãe preso ao ombro.
Aquele broche sempre me lembrava de uma frase dela: “Não entregue sua dignidade só para evitar o desconforto dos outros.”
Por muito tempo, eu tinha feito exatamente isso.
Julian subiu ao palco com uma taça na mão e aquele sorriso treinado que fazia estranhos confiarem nele antes mesmo de ouvir o que dizia. Quando seus olhos encontraram os meus, percebi que ele tinha planejado alguma coisa.
— Aí está ela — anunciou.
Algumas pessoas riram.
Eu mantive o sorriso educado.
— Todo homem bem-sucedido tem pelo menos um investimento terrível.
Dessa vez, o riso veio mais alto.
Senti um frio seco sob as costelas.
Julian esperou o salão silenciar de novo.
— O meu foi o casamento.
A risada morreu pela metade.
Ele ergueu a taça na minha direção.
— Meu erro mais caro.
Ninguém me defendeu. Nem mesmo algumas pessoas que, semanas antes, tinham jantado na minha casa e me chamado de amiga. Um conselheiro desviou os olhos. Uma mulher na mesa ao lado apertou os lábios. Alguém sussurrou: “Meu Deus.”
Então Camille se levantou.
Ela tinha trinta e quatro anos, era elegante, calculada e oficialmente ocupava o cargo de assessora sênior de Julian. Extraoficialmente, era a razão de ele atender ligações na varanda à meia-noite e voltar para casa com um perfume que não era o meu.
Julian estendeu a mão.
Camille aceitou.
Quando ela subiu ao palco, vi o chaveiro prateado do Bentley balançando entre seus dedos. Reconheci na hora. Eu mesma tinha aprovado a compra daquele carro por uma das holdings da minha família.
Julian a puxou para perto.
E a beijou.
Não foi rápido. Não foi impulsivo. Ele queria que todos vissem.
O salão ficou tão silencioso que ouvi o gelo se acomodar dentro de um copo atrás de mim.
Camille abriu os olhos primeiro e me encarou por cima do ombro dele. Havia triunfo em seu rosto.
Aquilo quase me fez rir.
Durante anos, Julian havia permitido que o mundo acreditasse que tudo era dele. A empresa. Os imóveis. O avião. Os carros. A mansão onde ele oferecia jantares e falava como se tivesse escolhido cada tijolo.
Mas as estruturas societárias, os contratos e os ativos estavam ligados a entidades controladas pela minha família muito antes de Julian se tornar o rosto conhecido do grupo.
Ele sabia disso no começo.
O sucesso apenas tornara conveniente esquecer.
Quando finalmente olhou para mim, vi o que esperava: lágrimas, gritos, uma cena. Talvez quisesse me ver implorando diante das mesmas pessoas que acabara de usar como plateia para minha humilhação.
Eu me levantei.
Alisei o vestido.
Toquei de leve o broche de safira.
E sorri.
A expressão de Julian vacilou por um segundo.
Saí do salão sem dizer uma palavra.
Do lado de fora, o ar noturno estava frio e limpo. Atravessei o terraço de pedra, peguei o celular e liguei para Benjamin Shaw, advogado da minha família havia quase vinte anos.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Victoria?
— Prepare a notificação completa de desligamento de Julian Mercer.
Houve uma pausa curta.
Benjamin entendeu.
— Todos os cargos?
— Todos.
— E os ativos de uso pessoal?
Olhei pelas portas de vidro. Lá dentro, Julian já ria outra vez, com o braço em torno de Camille, tentando convencer o salão de que ainda era o homem mais poderoso dali.
— Sim.
Minha voz não mudou.
— Retire tudo que não pertence a ele.
Trinta minutos depois, Julian continuava cercado de amigos quando o telefone tocou.
Ele atendeu sorrindo.
Então o sorriso desapareceu.
O rosto ficou pálido.
A taça começou a tremer em sua mão.
E, do outro lado do salão, Camille deu um passo lento para longe dele.
Eu não ouvi a primeira frase da ligação, mas não precisava. Sabia quem estava falando com ele: o diretor jurídico do grupo, a única pessoa além de Benjamin e de mim que tinha autorização para executar determinadas cláusulas sem esperar reunião formal do conselho.
Julian se afastou do círculo de convidados.
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